A força das redes nas eleições 2020

Não podemos fazer avaliação das eleições de 2020 sem a influência das redes sociais. Não só seu engajamento, mas também uma alternativa aos meios de comunicação de massa.

É indiscutível a dificuldade de se adaptar a essa nova realidade, seja por questões técnicas, financeiras e também por falta de compreensão política da importância das redes.

Já faz tempo que o grande debate ideológico e cultural é feito através das redes, seja de forma nacional ou internacional. A internet ganhou um protagonismo nas compras do dia-a-dia, no aprendizado de cursos, nas receitas de comida, no entretenimento. Não é nada surpreendente que também tenha ganhado protagonismo na vida política de uma sociedade.

Os setores conservadores que se articulam pelo mundo, como Vitkor Orbán na Hungria, Trump nos EUA, Matteo Salvini na Itália e tantos outros encontram nas redes uma importância para as suas políticas. No Brasil, essa mesma importância também é vista pelos membros do governo Bolsonaro, além de seus filhos, seus ministros e seus defensores. 

Podemos identificar três principais frentes contra a esquerda: o ultra-liberalismo, o anticomunismo e uma direita religiosa formada pelos cristãos conservadores, sejam católicos ou evangélicos.

Essas frentes criaram um grande “partido” em nosso país, disposto a ganhar o poder através de narrativas construídas em cima da criminalização de atores políticos da esquerda, negando aspectos científicos e tentando destruir a reputação de profissionais da imprensa.

O que aconteceu na Grande São Paulo, na capital ou em qualquer lugar é que o ambiente do bolsonarismo e os setores de centro conservadores dominam o debate nas redes sociais que nos colocam sempre de forma defensiva. 

Além disso, também houve um conjunto de mudanças na legislação eleitoral nas eleições de 2020: o fim das coligações, o modelo de financiamento privado de campanha e tantas outras mudanças foram essenciais no âmbito federal, mas prejudicaram os partidos e candidatos nos municípios. 

É possível até afirmar que não houve boca de urna nas eleições municipais. Com a pandemia, a boca de urna exposta na frente dos colégios migrou direto para a compra de votos. A contratação da boca de urna foi, na verdade, uma maneira de amarrar o voto através do poder financeiro. 

Com o acirramento da fiscalização do dinheiro público, as regras rígidas para impressão e divulgação de materiais gráficos e a fiscalização dos anúncios por parte do Facebook e do Google, houve um corre corre nos últimos dias de campanha para se gastar todo o dinheiro enviado aos partidos para que seus candidatos fizessem campanha. 

Luiz Barroso, presidente do TSE, chegou a dizer o absurdo que foi a “eleição mais limpa da história do Brasil”. Uma vergonha.

Vamos ter coragem de colocar o dedo na ferida? Mostrar o peso do poder econômico nas eleições municipais? Relatar as dezenas, centenas de casos de compra voto?

Só há um jeito de derrotar a força do poder econômico: fazer parte da vida real das pessoas, da vida das comunidades, das suas formas de organização de expressões culturais e religiosas. Esse é o desafio.

Sergio Ribeiro

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